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A experiência geral demonstra que as temperaturas extremas têm
influência sobre a quantidade e qualidade de trabalho que o homem pode
realizar, como também sobre a forma em que possa fazê-lo. O problema
industrial freqüentemente origina-se pela
exposição ao calor produzido por fontes radiantes, correntes convectivas
ou simplesmente por condução. O corpo humano também produz
calor através de seus processos metabólicos. Tais processos estão
concebidos de forma que possam funcionar somente entre margens bastante estreitas.
Para que o organismo atue eficientemente é então necessário
que o calor produzido se dissipe tão rapidamente como se produz. Além
disso, o organismo possui um conjunto de mecanismos
termostáticos de atuação rápida e sensível,
que tem como missão controlar o ritmo dos processos reguladores de temperatura
A avaliação da fadiga por calor excessivo, através da interpretação
da informação relacionada com a fisiologia do homem e a valoração
do comportamento ou estado dos parâmetros ambientais em que o trabalho
se desenvolve não é tarefa simples nem fácil. O conhecimento
do problema e sua resolução requer muito mais que efetuar umas
quantas medições ambientais e, a partir dos resultados destas,
tomar decisões ou emitir pareceres conclusivos.
CONFORTO OU FADIGA?
Uma questão importante em princípio deve ser resolvida: a exposição
se apresenta simplesmente como problema de conforto térmico, ou as condições
são tais que uma exposição contínua poderá
resultar numa fadiga anormal? O problema encontra-se sempre dentro destes limites.
Isto faz que se tome difícil para alguém provido apenas com uma
bateria de termômetros e uma folha de dados, interpretar a informação
e produzir com certa exatidão como se sente e se efetivamente a exposição
está ou não afetando os indivíduos em estudo.
O homem funciona eficientemente só dentro de certos limites de temperatura
corporal, a temperatura do núcleo, medida bem dentro do corpo é
o que se pretende avaliar e regular. As flutuações da temperatura
do núcleo em menos de dois ou mais de três graus centígrados
da temperatura normal de 37 graus poderá criar condições
severas de anormalidade. Excedida a temperatura do núcleo em cinco graus
centígrados, existe realmente risco para a saúde. Afortunadamente
o sistema termo-regulador funciona bem nos ambientes cálidos e as condições
ambientais têm que ser muito severas para que a exposição
chegue a se apresentar como critica.
Como dizemos, o mecanismo termo-regulador é normalmente muito eficiente;
não obstante, se é sobrecarregado ou se por outros motivos deixa
de funcionar corretamente, pode dar por resultado uma extenuação
calórica de graves conseqüências.
AVALIAÇÃO DAS EXPOSIÇÕES
Dependendo dos objetivos da avaliação, existem diversos critérios
ou métodos de
avaliação. Assim, como forma de abreviar, sem contudo furtarmos
ao rigor técnico e
científico que o caso requer, apontaremos e definiremos os dois objetivos
que achamos em principio fundamental:
1) Avaliação para conferência do cumprimento da legislação
vigente
2) Avaliação para análise de comportamento dos parâmetros
envolvidos na exposição (por separado) para a procura de soluções
através da modificação da interação
paramétrica.
No primeiro caso, a avaliação é simplificada através
do uso de uma bateria de
termômetros e o cálculo do Índice de Temperatura Úmida
e Temperatura de Globo (IBUTG), aceito pela legislação brasileira
e explicado claramente no Anexo 3 da NR-15 (portaria 3.214 do MTb). O IBUTG
neste caso é calculado segundo a fórmula.
(1) Para interiores e exteriores sem carga solar
IBUTG=0,7Tbn+0,3Tg
(2) Exteriores com carga solar
IBUTG =0,7Tbn+0,2Tg+0,1 Tbs
Tbn = Temperatura Natural do Bulbo Úmido
Tg = Temperatura de Globo
Tbs = Temperatura de Bulbo seco
O critério define neste caso que o Limite de Tolerância é excedido quando qualquer combinação de temperatura do ar exceda o IBUTG em função do tipo de atividade (leve, moderada ou pesada), do Anexo 3 da NR-15.0 mesmo quadro n2 1 determina restrições, aceitando exposições contínuas a IBUTG de 30 graus centígrados em trabalho leve, até 26,7 graus em trabalho moderado e 25 graus em atividade pesada. Acima desses IBUTG, a NR exige a adequação em Regime de Trabalho Descanso no próprio local (ou seja, no mesmo IBUTG). Acima de 32,2 graus em atividade leve, 31,1 graus em atividade moderada e 30 graus em trabalho pesado, peremptoriamente proíbe exposições sem a adoção de medidas adequadas de controle.
Que trabalho e que descanso?
O trabalho mencionado na página anterior é representado por qualquer
atividade que determine uma adição de calor metabólico
(do trabalho) ao calor gerado por metabolismo basal. Já o descanso é
representado pelas pausas programadas ou não, tempos de ociosidade operacional
ou administrativa. Todo trabalho, com raras exceções, é
de ritmo auto-regulável e o trabalho propriamente, é limitado
espontaneamente para 30-50 por cento da capacidade física máxima.
Assim, a média diária de taxa de metabolismo total dos trabalhadores
raramente excederá 330 kcal/hora. Entretanto em algumas atividades muito
específicas poderão ocorrer períodos curtos onde a taxa
metabólica média será maior. Cuidados especiais deverão
ser observados nas estimativas de cargas metabólicas' hora. Recomenda-se,
portanto, para maior exatidão as estimativas e cálculos em kcal/min
ou BTU/min extrapolando depois para horas, pois na realidade é muito
difícil que se apresentem atividades uniformes durante uma hora, sobretudo
em trabalhos considerados de moderado a pesado.
Só trabalho forçado, altamente fadigante, ultrapassará
as 300 kcal/h de forma permanente. Praticamente não existem situações
tão severas, nem pessoal que suporte tal carga metabólica de forma
permanente além de curtíssimos períodos (taxas médias
e faixas em kcal/min, para estimação e cálculo, poderão
se r encontradas nas publicações especializadas que deram origem
ao e adaptado para a NR - 15 Anexo nº 3).
AVALIAÇÃO PELO IBUTG
1) Avalie o local identificando fontes radiantes primárias (focos),
fontes radiantes
secundárias (equipamentos, máquinas ou instalações)
que emitam como corpos negros. Identifique fontes de calor condutivas e as correntes
convectivas. Não esquecer que o corpo humano também emite calor,
dessa mesma forma, assim como ganha calor
através desses mesmos fenômenos físicos.
2) Instale a bateria de termômetro no local onde será a exposição a ser medida.
3) Descreva a atividade dividindo-a em ciclos de trabalho. Geralmente os ciclos se repetem. Registre as pausas, outorgue um valor em taxa metabólica a cada movimento da operação (Ex: andar, subir, carregar, movimento de braços, pernas, etc). Cada um destes movimentos produz uma carga metabólica diferente. Meça os tempos dos movimentos para assegurar certo grau de exatidão à estimativa por hora.
FIGURA
PRECAUÇÕES ESPECIAIS
a) Assegurar-se que a ponta da gaze que envolve o termômetro de bulbo
úmido
permaneça submersa na água. A gaze ao redor do bulbo permanecerá
molhada por capilaridade.
b) Assegurar-se que o bulbo úmido seja permanentemente ventilado pelas
próprias correntes de ar existentes no local. A função
do bulbo úmido é ganhar calor por condução e convecção,
e perder calor por condução e convecção, além
de perder também calor pela evaporação da água contida
no invólucro do bulbo (neste caso simula a perda de calor por evaporação
do suor).
c) Efetue várias leituras sucessivas até registrar a leitura da
temperatura com os
termômetros estabilizados; isto é conseguido mais ou menos após
20 a 25 minutos de exposição da bateria.
d) Efetue um mapeamento em IBUTG medido e calculado nos diversos pontos onde
se permanece ou se transita em função da atividade analisada.
ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO
O IBUTG medido e calculado nos diversos pontos onde se realiza a atividade revela um valor (índice) que correlaciona a carga total de calor ambiental a que o indivíduo permaneceria exposto. Somada, a carga de calor metabólico determina conjuntamente a carga de calor total. Portanto, a carga de trabalho de cada função deve ser estabelecida e o limite de calor pertinente à carga de trabalho, avaliada em confronto com o padrão aplicável, com a finalidade de proteger o trabalhador de exposições acima do limite permissível.
CATEGORIAS
As Categorias de Carga de Trabalho são:
Trabalho Leve - Situada abaixo de 200 kcal/h ou 800 BTU/h. exemplo: sentado ou de pé, no controle de máquinas, realizando trabalho com as mãos ou braços.
Trabalho Moderado - De 200 a 350 kcal/h ou de 800 a 1.400 BTU/ h. Exemplo: em movimento levantando ou empurrando moderadamente.
Trabalho Pesado - De 350 a 500 kcal/h ou de 1.400 a 2.000 BTU/h. Exemplo. trabalho com picareta e pá; misturar concreto a mão.
Garantindo a Homeostase
A manutenção do Equilíbrio Homeotérmico - garantir
que a temperatura do núcleo se manterá entre os limites ideais
- é objetivo do higienista industrial no caso dos estudos das exposições
ao calor. Decidir sem maior análise, por diminuição dos
tempos de trabalho, diminuição do ritmo do trabalho, passar a
pagar adicionais por insalubridade pela impossibilidade aparente de modificar
o IBUTG do local, significará apresentar um certificado de incompetência
técnica. É também desinteresse pela melhoria da qualidade
de vida e/ou controlar as perdas financeiras que resultarão do não
cumprimento dos requisitos a que objetivem a redução do IBUTG
através do controle individual do
parâmetro contribuinte de maior importância ou através da
modificação a interação dos parâmetros diversos.
O controle das cargas de calor radiante mediante utilização de
barreiras absorventes ou refletivas, a redução dos coeficientes
de radiação e absorção, a redução
das cargas radiantes em sua intensidade pela variação do quadrado,
compõem algumas das ferramentas técnicas a serem utilizadas. A
modificação das correntes de ar em velocidade, temperatura e umidade
relativas; as modificações introduzidas na velocidade e direção
das correntes convectivas conformam o complemento das receitas de controle com
garantias de eficiência asseguradas. Porém, não será
a simples ação de avaliação ambiental e seus resultados,
que fornecerá as informações fundamentais para a procura
de soluções. Haverá, portanto, que recorrer a outras técnicas
especificas e à necessária experiência que, fundamentada
em sólidas bases teóricas e resultados empíricos comprovados
através de inúmeras experimentações, levará
à efetivação de medidas de controle adequadas livrando
aos trabalhadores do risco ocupacional por exposições ao calor.
Livrará também os empresários dos conflitos trabalhistas
sob esta origem ou dos riscos econômicos e financeiros envolvidos em adequações
só administrativas e legais cuja aplicação, sem ter passado
pelas tentativas de soluções técnicas se apresentará
no mínimo como perdas por diminuição de jornadas de trabalho,
adição de mais um turno, pagamento de adicionais de insalubridade,
processos cíveis e criminais e, até, liminares prevendo a interdição
temporária ou definitiva de empresas com este risco fora de controle
ousem condições de demonstrar seu estado de controle técnico
e administrativo.
As soluções técnicas através da adequação
para-métrica dos ambientes e atividades sujeitas ao calor industrial
estão disponíveis. É apenas questão de estudo, aplicação
técnica e vontade administrativa para o efetivo controle gerencial.
Estudo da exposição ao calor Estudo de conforto térmico
- São feitos de acordo com
critérios adequados para conforto, como por exemplo, Método da
Temperaturas Efetivas (TE). A Legislação Brasileira cita este
método na NR-17 -Ergonomia, para aquelas atividades que exijam solicitação
intelectual e atenção constante, tais como salas de controle,
laboratórios, escritórios, salas de projetos, etc.
Estudos de sobrecarga térmica - Deve ser feito nas situações
de exposição ocupacional mais agressivas como atividades com fornos,
forjarias, fundição de vidro, metais,
cerâmica, etc. Deve se usar o índice de Bulbo Úmido Termômetro
de Globo (IBUTG). Em termos legais, aplica-se a NR-15 anexo 3 da Portaria 3.214
do MTb.
ABORDAGEM
-Divida a atividade em estudo em ciclos de trabalho
-Especifique cada situação térmica (parte do ciclo com
parâmetros térmicos constantes)
-Determine o tempo de exposição para cada situação
térmica
-Determine a taxa do metabolismo por atividade:
(kcal)
M hora
-Posicione o conjunto de termômetros e após 25 minutos de estabilização
meça:
tbm (ºC)
tbs (ºC)
tg (ºC)
quando houver carga solar, ou
tbm (ºC)
tg (ºC)
quando não tiver carga solar.
-Com estas informações calcule o IBUTG médio e compare
este valor com taxa do metabolismo médio
-Compare os resultados com o quadro número dois, que representam os Limites
de
Tolerância
-Caso o valor exceder estes limites, altere os tempos de trabalho e descanso
e volte a fazer os cálculos
CONCLUSÃO
Como se observa o uso deste índice IBUTG, orienta as medidas de controle
que podem ser de dois tipos:
1) De Engenharia - Controlando a emissão ao ambiente de trabalho através
de
modificações, barreiras refletantes ou absorventes, ventilação,
etc.
2) Modificando os tempos de exposição - Calculando os regimes
de trabalho-descanso compatíveis com a manutenção da temperatura
do núcleo do corpo inalterada, evitando a sobrecarga térmica.
GRÁFICO
* José Manuel Gana Solo é engenheiro químico, mestre em
Higiene Industrial pela Universidade Católica do Chile, higienista, professor
de Higiene Industrial pele Unicanp e de cursos de especialização
de Engenharia de segurança de Trabalho, além de assessor científico
de Momitoring Consultoria em Higiene Industrial.